Isolamento e Inclusão: no limiar entre dois mundos

#Flávio Gonzalez

O barulho nervoso das buzinas no fim do dia, as discussões de manhã no metrô lotado, as filas na porta da escola, no caixa, no banco, o corre-corre frenético de um lugar para o outro, a necessária gestão do tempo. Vivemos um momento atípico no qual todas estas coisas estão suspensas. Isolamento social é a palavra de ordem em todas as partes do mundo. Chegam-nos pelo whatsapp textos sobre como lidar com isto para a manutenção da saúde mental, o equilíbrio emocional, a necessária serenidade.

Isto passará! Passará simplesmente porque tudo passa. Como diz o provérbio português, “não há mal que dure para sempre, nem bem que nunca se acabe”.  Quem sabe neste dia, mais calmos e confiantes, possamos refletir e compreender a dor do isolamento social que historicamente afeta as pessoas com deficiência. O ônibus que não para, a atendente que não dirige a palavra, a porta fechada na empresa, na escola, no cinema, até mesmo as escadarias das igrejas, a prisão domiciliar de muitos, a falta de respeito, de consideração, enfim, de acesso. Há quanto tempo as pessoas com deficiência vivem isto? Procure no Antigo Testamento, na Grécia antiga, no Império Romano, e você perceberá que isto ocorre há milênios, desde o mundo antigo até o mundo atual.

O antropólogo norte americano, professor da Universidade de Colúmbia, Robert Murphy, que realizou tantas pesquisas, inclusive com índios no Brasil, após tornar-se ele mesmo uma pessoa com deficiência, desistiu de estudar o que chamava de “povos longínquos” para compreender, segundo suas palavras, a “enorme distância” que existe entre nós e as pessoas mais próximas. Isto porque, quando não segregadas completamente, muitas há que estão aparentemente incluídas, mas continuam isoladas no próprio ambiente em que vivem, entre eles o ambiente de trabalho. Trata-se da “limiaridade”.

Este termo, cunhado por Murphy em 1976, aponta para o fato de que muitas pessoas estão numa posição limiar “entre” a segregação e a inclusão, uma espécie de umbral social, permeado de isolamento, mas revestido de uma pseudo socialização. Numa famosa dissertação de mestrado da USP, o psicólogo Fernando Braga da Costa criou outro termo, “invisibilidade pública”, ao comprovar que garis não eram percebidos, nem sequer notados, socialmente.  Eram como seres invisíveis, habitantes de um híbrido lugar onde estão, mas não são vistos, como se não existissem. Isto também ocorre com as pessoas com deficiência. São, por exemplo, o “etc.” dos programas ou discursos sobre diversidade, aqueles que nunca aparecem, mas ficam subentendidos, aqueles cujo banheiro ou o elevador existem, mas estão sempre trancados ou em manutenção, como se “ninguém” fosse utilizar.

Qual a distância entre o mundo real e o ideal? Estamos torcendo muito para que nossa vida volte ao “normal”, todos nós. O isolamento social, embora indiscutivelmente necessário agora, é algo que ninguém quer, um remédio amargo por falta de uma solução melhor. Teremos que conviver com a dor e a saudade dos que partiram já que, bem ao contrário do que nos ensinaram, ninguém é substituível. Mas, como iremos conviver com os que ficaram? Do mesmo jeito? Quando não temos as respostas precisamos aprender a conviver com as perguntas. Tolkien nos disse, através de seu sábio personagem Gandalf, que “tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado”. Em que mundo viveremos quando tudo isto passar? Isto será uma decisão nossa. Não há que se preguntar à vida o que ela tem a nos oferecer. É a vida quem nos pergunta, “o que vocês farão de mim?”.

Flávio Gonzalez – Psicólogo, mestre em aconselhamento, executivo social do Instituto Jô Clemente.

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