O novo mundo das adaptações razoáveis

Falar de novo mundo é sempre um enorme desafio, especialmente nesse momento difícil que estamos vivendo. Por isso, não há aqui a pretensão de projetar o futuro ou ditar tendências, mas contribuir com reflexões e possibilidades sobre a necessária adoção de adaptações razoáveis. Já ouviu falar sobre isso?

Talvez não seja um termo que faça parte das manchetes dos jornais, mas sem dúvida alguma hoje faz parte da vida de todas as pessoas. De uma hora para outra, a grande maioria das pessoas precisou adaptar-se a uma nova rotina. Foi assim, no susto e meio no tropeço que a maioria começou a tomar conhecimento da tal adaptação. E mais, passamos a compreender também o que é razoável para que sejamos produtivos.

Esse termo, adaptação razoável, não é novo, inclusive existe na legislação. Pode ser encontrado na Lei Brasileira de Inclusão (LBI) e também em tratados internacionais como a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD) da ONU. Esta última, naturalmente com foco na inclusão, define as adaptações razoáveis como ajustes que não acarretam ônus desproporcional ou indevido, para assegurar que as pessoas com deficiência possam exercer seus direitos em igualdade de oportunidade.

Nas adaptações razoáveis as protagonistas são as necessidades de cada pessoa. Mas que pessoa? Qualquer pessoa. Eu, você, eles e elas. E acredite, todos têm necessidade a serem atendidas. O ponto-chave é identificar o que a pessoa precisa e estudar a possibilidade de oferecer essa adaptação.

Uma pessoa que sofreu um acidente, e está temporariamente imobilizado, pode precisar de recursos de tecnologia assistiva no seu trabalho. Uma gestante, que tenha enjôos matinais, pode precisar entrar um pouco mais tarde para fugir do horário de pico do trânsito. Uma pessoa que tenha uma religião não dominante no ocidente pode precisar de uma licença para uma data importante para a sua crença, mas que não é feriado por aqui. Um programador de computador com deficiência visual pode precisar de um software leitor de tela para desenvolver seus programas. E por fim, uma pessoa acostumada com a rotina de trabalho de um escritório, certamente, vai precisar de uma série de adaptações para atuar em home-office.

No ano passado, lançamos a versão em língua portuguesa do livro “Promovendo a diversidade e a inclusão mediante adaptações no local de trabalho – Um guia prático”, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), com tradução do consultor Romeu Sassaki. O guia, em questão, aborda esse tema pouco difundido no Brasil: o das adaptações razoáveis.

O livro traz diversos exemplos e cases de aplicação do conceito em 4 categorias de trabalhadores: com deficiência, com HIV ou AIDS, gestantes, aqueles com responsabilidades familiares e os que professam determinada religião. Mas destaca, já em sua introdução, que apesar de focar nesses grupos, as adaptações razoáveis podem ser importantes para muitas outras pessoas.

E você? Já parou para pensar nas adaptações que utiliza ou que precisa? Pense também nas pessoas do seu convívio, como seus pares e colegas de trabalho. Você certamente vai perceber que como as pessoas são diferentes, também têm necessidades diferentes. Ao aplicar as adaptações, razoáveis também estamos exercitando a empatia social. Isso sempre foi importante, mas talvez hoje em dia esteja mais latente. Essa necessidade de nos colocarmos no lugar de outra pessoa e oferecer aquilo que ela efetivamente precisa não é apenas o mínimo que devemos fazer, mas também passou a ser o razoável.

Rafael Públio é sócio fundador da Santa Causa Boas Ideias & Projetos (www.stacausa.com.br), consultoria com a     missão de ajudar empresas a melhorarem sua gestão inclusiva e perceberem a diversidade como valor para o negócio.

#PraTodosVerem: na direita da página foto do Rafael Publio. Ele é careca, com barba e bigode curtos, está em pé e veste uma camisa social preta, tem um crachá pendurado no pescoço e segura um microfone na mão esquerda. Atrás dele tem um telão.

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